sexta-feira, 27 de março de 2015

ACONTECEU POR ACASO


Era uma tarde de verão como outra qualquer, mas algo naquele verão de Portside seria diferente. A livraria, única livraria que ainda persistia em meio à globalização, abrira suas portas às vésperas do feriado local com a esperança de que naquela noite conseguissem o milagre que Olívia, dona do local, tanto esperava. Olívia rezara, coisa que nunca fez, naquela madrugada, pedira que o banco aceitasse seu mais recente pedido de empréstimo.
Não foi o que aconteceu...era o que já sabia fazia algumas horas sentada nas escadas da livraria, pensando em uma forma de contar a Karen e Oliver, que eram mais do que funcionários, eram amigos e, mais do que amigos, seus mais fiéis companheiros de trabalho, desde que sua mãe falecera e lhe deixara a livraria como herança.
Mel e seu marido, Arthur, tinham um plano para que Olívia conseguisse pagar todas as suas dívidas, mas será que Olívia aceitaria?! Mel e seu sexto sentido feminino achavam que sim, Arthur e sua racionalidade masculina acreditavam que tudo estava perdido...
“Vocês enlouqueceram?!”, esta havia sido a resposta de Olívia em relação à ideia de Mel. Ah, claro, vocês devem estar curiosos...A ideia era simples, persuadir o mais rico solteiro da cidade e se casar o mais rápido que conseguisse, afinal, “nada melhor do que um pouquinho de dinheiro para resolver a situação”, foi o que Mel lhe disse após Olívia sair pela porta enfurecida.
Após mais alguns minutos sentada naquela escada Olívia estava repensando sua resposta...achou melhor ouvir tudo, e retornou para a casa de sua irmã, que agora tomava café da manhã.
---- Como você acha que eu conseguiria fazer com que Jack se casasse comigo?, disse Olívia, já sentando-se à mesa.
---- Bom dia para você também..., disse Mel, já comemorando que estava certa. ---- Não me venha com essa, foi você que deu a ideia, disse Olívia envergonhada de ter que pensar em algo assim.
Passaram-se quase duas semanas desde que haviam conversado e mal podia acreditar que agora estava esperando Jack para jantarem juntos. Quase não acreditou quando sua irmã lhe dera a ideia, mas agora, que finalmente havia conseguido o primeiro e tão sonhado encontro, tinha que admitir que sua irmã tinha mais faro para homens do que ela...
“Nossa, nem podia acreditar que a mulher mais linda da cidade aceitara seu convite”, era o que Jack não parava de pensar...
---- Olá, Jack, está tudo bem?!, perguntou Olívia, preocupada com a reação de Jack ao abrir a porta.
---- Sim, sim...é que você está linda...quer dizer, você é linda, mas hoje, Aff...
---- Jack, calma, eu entendi, e obrigada..., disse Olívia, ainda tentando entender aquele elogio repentino de alguém que ela jamais imaginaria sendo o autor...
---- Desculpe, eu não sei como fazer essas coisas, mas vou tentar de novo...linda, como sempre, mas hoje mais do que o habitual, é que você não costuma usar muito vestido, deveria, você fica linda...
---- Nossa! Obrigada, Jack. Vou pensar quanto a isso...quem sabe não uso mais..., respondeu Olívia, ainda admirada com os elogios, afinal, nunca o vira sair com alguém e muito menos com uma mulher e muito menos se imaginava sendo a mulher.
---- Bom, vamos?, disse Jack, tentando disfarçar a ansiedade do encontro.
---- Sim, vamos..., respondeu Olívia, meio sem jeito, ainda tentando entender, ou fingir que não entendia, o olhar de Jack.
Após alguns goles de vinho o clima de tensão inicial já nem se percebia e agora o que estava mais do que claro era que já não se sabia quem estava tentando conquistar quem. Mas, com certeza, ambos estavam mais ansiosos para outro local do que um restaurante sofisticado.
Olívia já não entendia nada. Quando chegaram ao restaurante suas investidas sensuais já nem eram mais necessárias, porque Jack passou de gentil e elegante para um homem que emanava testosterona por todos os poros...agora, ela apenas ria de uma ou outra investida, fingindo ser recatada, enquanto Jack não parava de pensar em como tirar a roupa de Olívia.
Ao fim do encontro Olívia já não se reconhecia no banco de trás do carro de Jack, como se ainda fosse uma adolescente. No início, ela apenas ia se despedir com um beijo de boa noite e, agora, já nem se lembrava mais como haviam parado ali. Antes que Jack conseguisse lhe despir por completo, lançou:
---- Vamos entrar..., disse Olívia ofegante.
---- Você tem certeza?!, disse Jack, agora já afastado e olhando profundamente para Olívia.
---- Não tenho certeza de nada, a única coisa da qual tenho certeza é que eu não quero estar no banco de trás quando me lembrar deste encontro., respondeu Olívia ainda confusa com sua resposta.
E sem falar absolutamente nada à Olívia, quando se deram conta já estavam frente a frente no quarto...Olívia não parava de morder seu lábio interno da boca, sinal de que estava mais ansiosa do que nervosa e Jack não parava de esfregar as mãos na calça, pelo mesmo motivo.
---- Você tem certeza que quer continuar?!, disse Jack segurando o queixo de Olívia com carinho.
---- Absoluta!, lançou.
Sem pronunciar uma palavra Jack a beijou, mas a beijou de uma forma que jamais havia sido beijada, ao mesmo tempo que havia carinho também havia ânsia e uma ânsia que Olívia jamais pensaria que viria dele...
Antes que Jack a despisse, a enlaçou pela cintura e disse, com voz firme:
---- Olívia, não sou como esses idiotas, que, para mim, não considero homens, que chega um ponto que não há volta. Se quiser parar, ou não estiver confortável para você, é só falar e paro imediatamente.
E, sem pronunciar uma palavra sequer, Olívia lhe respondeu com apenas um beijo e uma afirmação com a cabeça, quase sem reação pela postura de Jack ao pronunciar aquelas palavras.
Quando o sol de meio-dia despontou pela janela a única certeza que Olívia tinha era de que estaria encrencada se Jack não a pedisse em casamento até o final do mês. Mas, não pelas dívidas, coisa que já nem passava mais pela sua cabeça, pelo sentimento que a envolvera naquela noite e que ainda não queria acreditar, afinal, ela não podia ter gostado, ou podia?!
---- Bom dia, Bela Adormecida!, disse Jack segurando uma bandeja.
---- Bom, Olívia parou sem fala, quando viu que Jack havia acordado e preparado aquilo tudo...e continuou: não precisava ter se incomodado, terminou de falar.
---- Eu vi você dormindo tão profundamente que fiquei com pena de te acordar., respondeu Jack oferecendo um copo de suco.
Como não sabia como agir, levantou-se em um pulo, pegando o copo da mão de Jack, e enquanto abria seu closet bebia o suco. Optou por algo simples, pegando um vestido branco, assim ficaria menos tempo sob o olhar indagador de Jack e pegando sua bolsa disparou:
---- Fique à vontade. Vou até a livraria ver como anda tudo e retorno lá pelas 18hrs, caso queira ficar, esteja a vontade para comer e beber o que quiser na geladeira.
E antes que Jack pudesse responder saiu em disparada para sua irmã, pois só ela poderia lhe ajudar a entender tudo. Afinal, havia sido ela quem lhe pusera essa ideia maluca na cabeça...
Ao se deparar com a porta da casa de sua irmã percebeu que havia trazido as chaves e que, sem nem pensar, trancara Jack em sua casa. Mas não queria voltar, o jeito era ligar...
---- Jack, que bom que atendeu! Me desculpe, acabei trancando você ai!, disse com uma risada nervosa.
---- Ahhh, então foi por isso que não consegui abrir a porta, respondeu Jack em tom de ironia.
---- Eu estou na casa de minha irmã, tinha um assunto para tratar com ela antes de ir para a livraria. Não vou me demorar, mas só poderei retornar dentro de uma hora mais ou menos. Disse Olívia sem graça.
---- Eu estou brincando, nem levantei da cama, respondeu rindo e continuou, pode demorar o quanto quiser. Você mesma disse que não retorna antes das seis e eu não tenho nada que me impeça de ficar. Caso precise de algo eu aviso, ok?!
---- Ah! Bom, se não há nenhum problema, então nos vemos mais tarde. Saio daqui e passo na livraria, talvez antes das seis consiga retornar. De qualquer forma, eu aviso., respondeu Olívia já pensando que ia demorar mais em sua irmã diante dessa nova informação.
Ao desligar tocou a campainha e quem veio foi Arthur, pois sua irmã estava na livraria a esperando e a esta altura já havia espalhado a notícia de seu encontro por toda livraria. Se despediu rápido e foi em disparada para a livraria, onde estavam todos indóceis à sua espera.
---- Não fique aí parada, vamos, conte logo como foi!, disseram Karen e Mel, quase em uníssono.
---- Karen! Volte ao trabalho! Qualquer coisa eu estou na minha sala, e continuou, vamos Mel, temos muuuuuuuuuito que conversar!
Ao entrarem, Olívia se jogou em sua cadeira, respirou fundo e uma lágrima desceu pelo seu rosto. Mel, que não entendia nada foi em sua direção e a abraçou, Olívia, ao sentir aquele conforto, disparou num choro e, caiu em um pranto, que nem ela entendia...
---- Olívia! O que aconteceu?! Ele te machucou? Ele fez algo errado? Fala alguma coisa! Você está me assustando!, disse Mel, já pensando em tudo de ruim que Jack deveria ter feito com sua irmã.
---- Eu não posso! Eu não consigo!, foram as únicas frases que conseguiu responder.
---- Calma, vamos do início. Primeiro me explique porque está assim.
---- Mel, ele faz tudo certo, eu não consigo fingir estar apaixonada só pelo dinheiro dele. Eu posso parecer louca, mas eu acho que ele sempre esperou por esse encontro. Portanto, se ele esperou, eu não posso continuar, eu não posso magoar seus sentimentos!, disse Olívia aos prantos.
---- Calma, foi um encontro Olívia, ninguém se apaixona assim em um encontro! ---- Exatamente! Por isso eu não posso continuar! Ele sempre foi apaixonado por mim Mel, eu vi! Eu não posso fazer isso com ele, eu não consigo!
---- Olívia, você está se ouvindo? Por que não consegue? Se o que você diz é certo e Jack sempre foi ligado em você torna tudo mais fácil! A princípio era só pelo dinheiro, mas se ele sente isso por você, então, se entregue e pare de pensar no dinheiro, pois se ele está apaixonado por você, e você está se sentindo culpada então faça por você mesma!
---- Esse é problema! Eu não sei o que fazer...,Olívia admitiu finalmente.
---- Por que você ficou assim? O que você sentiu, o que está sentindo?
---- Mel, nós dormimos juntos, aliás, ele está lá em casa esperando eu chegar. Me acordou com uma bandeja de café na cama, eu não sabia o que fazer e corri pra cá. Quer dizer, corri pra sua casa, Arthur que falou que você já estava aqui.
---- Peraí! Tudo isso em um primeiro encontro?! Disse Mel rindo. ---- Por isso não me admira você estar assustada assim! Olívia, se acha que tudo está indo muito rápido, peça a ele para ir com calma. Simples.
---- Você acha que eu devo?
---- Olívia, esquece a livraria e volte para casa, vocês precisam conversar! Fale como se sente, tudo que observou, se você quer que seja uma relação maior do que um marido rico para pagar suas dívidas, se abra com ele.
---- Mas e se ele achar que dormi com ele por interesse? Quer dizer, no início sim, mas quando abri a porta e o vi ali na minha frente, eu não dormi com ele pelo dinheiro, aliás, eu nem sei porque dormi com ele...
---- Então fale tudo isso para ele, fale da livraria, fale de você! Se você pensa nele como algo mais do que era então você tem que estar tendo esta conversa com ele e não comigo.
---- Você tem razão! É um risco, mas ele precisa saber. Tenho que ser sincera.
Quando abriu a porta de casa, Olívia nem sabia como falar com Jack ou se devia falar. Mas, sua irmã tinha razão, se queria começar algo com Jack não podia ser mentindo. Entrou, largou sua bolsa na mesa e seguiu para a cozinha, pois seu olfato lhe indicava o caminho, e pelo cheiro eles precisavam mesmo conversar, porque ela sequer sabia que ele cozinhava.
---- Ah, oi, eu pensei que você ia demorar mais, nem perguntei se você se importava que cozinhe, é que pensei que você talvez fosse chegar com fome, você saiu só com aquele copo de suco...
---- Sem problemas, eu disse que podia ficar à vontade, eu nem sabia que você sabia cozinhar...
---- Tem muita coisa sobre mim que você não sabe, ainda...mas, em breve você saberá.
---- Jack, quando acabar, eu queria, quer dizer, eu quero conversar. Nós precisamos conversar!
---- Ok, se quiser podemos conversar primeiro. Posso cozinhar depois. Ia começar quando você chegou.
---- Se não se importa, prefiro que seja agora, eu preciso falar com você. ---- Ok, pode falar.
---- Aqui? Na cozinha?! Bem, tudo bem então...
---- Se preferir podemos conversar no seu quarto.
---- Melhor aqui...
---- Fala logo, o lugar não importa...
---- Tem razão! Bom, Jack, antes que você pense qualquer coisa melhor começar pelo fim. Eu realmente quero que demos certo e para isso tem algo que você precisa saber!
---- Que você está atolada em dívidas na livraria?! Olívia, todos aqui na cidade sabem disso. Quando seu cunhado comentou que você estava pensando em vender a livraria, eu imediatamente a convidei para jantar, esse foi meu intuito ontem, mas admito que tudo que aconteceu ontem e como aconteceu não estava em meus planos...
---- Você me convidou porque ia falar disso???
---- Sim, mas tudo que aconteceu depois, olha Olívia você é linda, mas meus motivos, o que eu queria era falar com a mulher de negócios, a Olívia que se deitou ao meu lado, eu não previ isso. Aconteceu...
---- Agora eu estou envergonhada.
---- Envergonhada? Você está arrependida? Isso que queria falar comigo?
---- Não, eu não estou arrependida! Jack, me deixe falar! Sem me interromper, por favor. Quando eu acabar de falar você irá me entender.
---- Prossiga. Prometo não interromper até acabar.
---- Jack, quando eu aceitei seu convite meu motivo, motivo não, a ideia foi toda da minha irmã. Quer dizer, bom, vamos do início...
Ao contrário do que Olívia pensou Jack quase foi embora ao ouvir as palavras “eu pensei em conquistar você, me casar e pedir o dinheiro”, mas antes que Jack o fizesse, Olívia, aos prantos, lhe confessou:
---- Quando levantei com aquela bandeja feita por você e ainda mais quando cheguei e o encontrei aqui na minha cozinha...o assunto que tinha que tratar com minha irmã era sobre isso! Eu não consigo Jack, não depois da noite que tivemos. ---- Eu estava certo, você se arrependeu...
---- Não! Ao contrário, você está certo em uma coisa, eu me arrependi, mas me arrependi de pedir dinheiro à você! Não quero seu dinheiro! Não depois do que tivemos! Eu não consigo fazer isso com você e nem comigo! Eu entenderei se quiser ir embora, mas saiba que lembrarei dessa noite para sempre...
---- Eu preciso ir embora...eu preciso pensar...no momento, só posso dizer até logo. Irei pensar em tudo que você me disse...mas não sei o que pensar...
---- Eu entendo...não o culpo...
---- Só peço uma coisa, não se envergonhe, você não sabia o que fazer. A motivação pode ter sido errada, mas não me arrependo de ter dormido com você nem de estar aqui agora...
---- Que bom saber disso, porque eu também não arrependo. Só me arrependo de não ter pensando num encontro antes...
---- Que bom ouvir isso...em breve entrarei em contato, no momento, preciso pensar em tudo, ok?!
---- Tudo bem...então, como você mesmo disse, até logo...
---- Até logo...
Se despediram formalmente, só um cumprimento de cabeça, nem mesmo um
aperto de mão...mas, o que esperar depois de tantos acontecimentos em apenas algumas horas...talvez Jack só precisava aceitar o que Olívia já observara, ou estava enganada e Jack havia sido apenas gentil, como seria com qualquer mulher com quem dormia...não por ser ela ou por estar apaixonado e, sim, por ser de sua personalidade...isso ninguém, a não ser Jack, sabia...
Ao chegar em sua casa Jack ainda estava tentando entender tudo que havia acontecido. Ou era louco ou a mulher que havia amado a vida toda estava querendo um relacionamento com ele! E, sentado com seu copo de whisky na mão, recordava sem parar o que Olívia lhe havia dito: “eu não consegui continuar”. Então, decidiu se envolver com ele e esquecer das dívidas?! Quanto a isso, ele já sabia como ajudar sem que ela se ofendesse. Mas, e quanto ao resto?
Jack passou quase toda madrugada pensando no que dizer quando a visse, mas ao ver Olívia linda, como sempre, em sua sala, sofrendo pensando em como iria resolver sua situação financeira e, agora, que já sabia qual era o sabor de sua boça, que tanto sonhou em beijar e, beijou...hesitou por um instante, respirou fundo e bateu na porta. “Entre”, lhe disse Olívia entretida em meio à crise financeira.
----- Olívia, olha, pensei muito em tudo que conversamos. Tenho duas propostas para lhe fazer, se não estiver ocupada para me ouvir, claro. Atrapalho?
----- Oi Jack, não imagina como é bom poder ouvir uma voz amiga...imagina, você nunca atrapalha, entre e sente-se.
----- Bom, o que tenho para oferecer é simples: o que pretende fazer quanto a sua situação financeira?
----- Sinceramente, não tenho ideia. Você tem algo em mente, estou aceitando sugestões....
----- Então, você disse que estaria disposta a se relacionar comigo, certo? E que não quer dinheiro envolvido. E eu já lhe disse que estava disposto a ajudar. O que acha se eu for um investidor? Eu financio a livraria, você paga suas dívidas e nós dois estaríamos ganhando. Você não estaria se envolvendo comigo pelo dinheiro e eu poderia ajudar. O que acha?
----- Me parece uma boa ideia, mas para isso eu teria que saber como você quer o retorno desse investimento, afinal, você também teria que ganhar, como você mesmo disse.
----- Bom, eu estava pensando em 20% em cima do que os clientes consumissem na cafeteria, afinal, eu não entendo nada de livros, mas entendo do ramo alimentício e poderia fazer um trabalho de marketing, se você me permitisse ajudar, claro.
----- Me parece razoável, desde que você não deixe de me consultar sem tomar decisões.
----- Combinado! Amanhã mesmo meu advogado trará o contrato e tirará todas as suas dúvidas.
----- Perfeito! Agora, falta você me explicar o outro assunto, afinal, você entrou dizendo que eram duas propostas. Mas, até agora, só ouvi uma.
----- Eu não esqueci, mas a outra proposta só falarei mais tarde se aceitar jantar comigo, mas, em minha casa, porque ainda lhe devo uma refeição.
----- Refeição que será feita por você, se não me engano.
----- Sem sombra de dúvidas! Então, aceita?
----- E tenho escolha? Você mesmo disse que só assim saberei a respeito da outra proposta! Então, aceito. A que horas?
----- Você é a mulher de negócios, extremamente atarefada, você decide.
----- Ah! Não é verdade....mas, hoje admito que terei algumas coisas pendentes, então, às oito?
----- Ok! Para mim está ótimo. Te espero na minha casa. ----- Estarei às oito em ponto!
E assim foi. Pontualmente às oito lá estava Olívia. Linda, como o habitual, mas, desta vez, era diferente. Se cumprimentaram com um beijo ardente ao se verem. E mal podia esperar para lhe dizer o que passou a vida inteira imaginando e sonhando....mas, agora, que estava prestes a dizer à mulher que sempre amou, tudo que sempre esteve guardado em seu coração, o enchia de esperanças. Aliás, também sentia medo, porque não sabia o que ela lhe diria ou como reagiria.
----- Nossa, você veio disposta a acabar comigo?
----- É uma retribuição em troca da maldade que fez, afinal, você me fez ficar pensando neste jantar o dia inteiro!
----- Pensou em mim o dia inteiro, Olívia? Interessante.
----- Eu não disse isso! Disse que pensei na proposta que você iria me explicar e não em você.
----- E não pensou em mim nem por um instante?, disse Jack, extremamente sedutor, envolvendo-a e enlaçando-a pela cintura, fazendo com que suas bocas quase se tocassem.
----- Talvez, mas você nunca saberá, respondeu Olívia dando-lhe um beijo rápido, um selinho apenas, em tom de ironia e desafio.
E sem falar absolutamente nada a pegou no colo e a sentou na mesa de mármore, em sua cozinha. Se posicionou entre suas pernas e em tom bem grave e sensual, quase em um sussurro lhe disse ao ouvido: não me provoque!
Olívia correspondeu a investida, o enlaçou pela cintura com suas pernas o puxou pelo pescoço e, depois de dar uma leve mordida em sua orelha, respondeu com uma voz rouca, sensual, como uma gata ronronando: eu que não quero ser provocada, porque senão eu serei obrigada a responder e se continuarmos com isso eu sairei daqui sem saber absolutamente nada, porque iremos esquecer o que eu vim fazer aqui.
----- Está bem, está bem, você venceu!, disse Jack, enquanto a ajudava a descer da mesa.
----- Bom, teremos que jantar ou podemos conversar enquanto comemos?
----- Primeiro jantamos, depois eu conto.
O jantar seguiu sem mais provocações e terminou como o esperado, um casal apaixonado ansioso por confessar o que sentiam e, assim, em meio ao clima de romance, foi que Jack, sem perceber declarou: parece que estou sonhando. Sempre sonhei com este momento e nem posso acreditar que você está aqui é que agora pouco você estava sentada nesta mesa e comigo!
----- Sempre? Sério Jack? Por que nunca me chamou para sair ou jantar, ou sei lá, nunca me disse nada?
----- Medo. Não sabia o que você diria e, sinceramente não iria aguentar ouvir você dizer “não”.
----- E como sabe que iria recusar? Eu poderia ter dito “sim”. Eu não disse sim? Olhe só, estou aqui não estou?
----- Ah, sim, mas só porque pensou em me conquistar para pagar suas dívidas.
E antes que pudesse se desculpar pelo que disse, Olívia já lhe dava as costas, aos prantos.
----- Era isso que estava pensando em propor? Uma transa selvagem quando quisesse e um jantar de vez em quando? Eu sabia que você jamais ficaria comigo depois de lhe falar toda a verdade, mas jamais imaginei que você pudesse chegar tão baixo!
Jack tentou lhe explicar mais uma vez que havia sido infeliz em seu comentário e que a amava, mas quando tentou pará-la na porta e lhe segurou o braço o que recebeu foi um tapa. Ele ainda a olhou nos olhos antes que saísse pela porta, mas o olhar que recebeu lhe doeu bem mais que o tapa. Preferiria mil tapas do que o olhar que Olívia lhe lançou. Nunca em todos estes anos alguém o olhou da forma que Olívia o fez. O olhar de nojo que ela lhe dera e vindo da mulher que mais amava, doía mais do que qualquer outra pessoa....
Antes que Olívia pudesse abrir a porta do carro e se entregar ao seu pranto, no aconchego de sua casa, viu que Jack a esperava. Não queria ouvi-lo, mas conseguia olhar para ele. E antes que pudesse fazer algo encostou a cabeça no volante e chorou, chorou compulsivamente e antes que seguisse com seu pranto de dor Jack bateu no vidro e lhe pediu que abrisse. Como não tinha forças para discutir apenas destrancou a porta e jogou seu rosto em sua mãos, e voltou ao seu choro de dor.
Jack mal podia acreditar no que fizera, como poderia brincar com alguém e com algo tão delicado como fizera é justo com ela, com Olívia, com a mulher que mais amava. Sem saber direito o que ela faria a puxou para seu peito e a abraçou, agora já ajoelhado ao pé da porta do carro. Ela se jogou, ainda soluçando e com o coração apertado lhe disse: eu te amo Olívia, por favor, eu não aguento ver você chorando assim! Vamos entrar, eu imploro, não me mande embora, se não quiser falar eu entenderei, mas ao menos me escute, por favor.
Sem falar nada, apenas em meio a lágrimas, Olívia lhe deu um leve empurrão, apenas para que se afastasse. Ele levantou-se e ela saiu do carro. Lhe jogou as chaves em um pedido mudo para que travasse o carro e lhe abrisse a porta de casa e, ainda soluçando, agora mais calma, mas ainda chorando, entraram. Ainda sem pronunciar uma palavra Olívia foi se despindo e quando Jack percebeu que ela estava entrando no banheiro pousou as chaves sob a mesa e se sentou, e esperou.
Olívia colocou seu “moletom da dor”, era como sua irmã costumava falar quando a via vestida assim, e se dirigiu à sala. Mas, quando estava prestes a finalmente pronunciar algo Jack se ajoelhou e em sinal de súplica lhe falou: por favor, não me expulse, me escute! Já disse, não precisava falar nada, mas me escute! Olívia se sentou um pouco afastada e fez um gesto com a mão para que prosseguisse, sem lhe dirigir uma só palavra.
----- Olívia, me perdoe, eu falei aquilo sem pensar! E, sinceramente, agradeço todos os dias por sua irmã ter te sugerido me conquistar, mas não porque penso que você seja uma mulher para uma transa esporádica, mas porque se ela não lhe tivesse sugerido fazer isso talvez eu jamais teria tido a oportunidade de te conhecer. Eu falo sério! Você pode achar até cafajeste o que vou dizer, mas eu aceitaria ser apenas uma transa esporádica sua se isso significasse poder estar com você. Eu sempre sonhei com o dia que você aceitaria me conhecer, e se os planos de sua irmã foram os responsáveis por você aceitar, que seja! Entendeu agora o que quis dizer? Foi um comentário infeliz, eu reconheço isso e peço que me perdoe, mas entende o que quero dizer?
----- Você sempre quis que eu o conhecesse? Você sempre repete isso! E eu juro que não entendo! Por que? Por que eu?
----- Olívia, você se lembra quando estávamos na universidade, na mesma turma de marketing e os rapazes se reuniram no clube?
----- Como posso esquecer, as meninas sequer tentaram falar com você e te conhecer e já foram exigindo para que você fosse embora, que você não havia sido convidado. Argh! Um bando de filhinhos de papai que não sabiam nada da vida! ----- Viu só, ainda hoje, depois de anos, você ainda repete o mesmo que disse! ----- Claro, porque é verdade! Mas, isso tem anos, como você mesmo disse, o que importa agora?
----- Tudo! Para mim importa! Porque naquele tempo eu ainda não tinha o patrimônio que tenho hoje, mesmo comparado a você, naquele tempo você tinha mais posse, sua família tinha prestígio e eu não era ninguém. Mas, mesmo assim, você me defendeu e fez questão de me puxar pela mão e passar o dia no clube, sem se importar com o que seus amigos iriam pensar ou mesmo as demais pessoas no clube! Ali, você me mostrou a diferença entre amizade e dinheiro, você me ensinou que mesmo com dinheiro quando se tem caráter o dinheiro não importa!
----- Eles não eram meus amigos, pelo menos não verdadeiros, percebi isso naquele dia. Quanto ao resto, não me importa! Fiz o que achava que era certo e meus pais o convidaram, então, só eles podiam pedir para que você fosse embora. E eles o adoravam, sei que jamais fariam isso!
----- Eu sei Olívia, mas entende que para mim, naquele tempo, fazia diferença! Que você fez diferença?
----- Tudo bem, isso eu entendo, mas o que isso importa agora, que diferença faz hoje?
----- Olívia, foi naquele dia, com sua atitude que me fez admirar você. Depois daquele dia minha admiração só aumentou e, meses depois, quando sua mãe veio a falecer que você me ligou e me disse “preciso de você do meu lado” essa admiração só aumentou com o passar dos anos.
----- Claro que liguei! Jack, você era meu amigo, o único que me apoiava, que me ouvia, era só você que eu queria naquele momento e você a conheceu, quem mais chamaria?
----- Olívia, eu fui e iria de novo, mas quando você recusou o meu beijo naquele dia o que queria que eu fizesse depois, que a chamasse para jantar? Você me explicou direitinho que eu era seu amigo, aliás que eu não passaria disso!
----- Ai Jack, então foi isso? Você achou que eu recusei porque eu o via só como amigo? Olha, eu não sei o que aconteceria se eu tivesse permitido, mas posso dizer porque não permiti. E, em minha defesa, você entendeu tudo errado! Ou pelo menos fez isso no momento errado!
----- Então, você está me dizendo que se eu tivesse tentando beijar você em outro momento você teria permitido?
----- Eu não sei, é isso que estou tentando dizer! Olha, naquele dia eu havia perdido a pessoa que mais amava, estava sem chão, eu queria seu carinho, mas eu não estava em clima de romance, entendeu o que quis dizer?
----- Entendi. Então, você só recusou porque estava triste, foi isso?
----- Não sei dizer, o que sinto hoje depois do encontro, depois de acordar ao seu lado, eu não sei! Olha, a menina naquele dia que recusou o seu beijo não é a mulher que dormiu com você, é isso que estou tentando explicar. Não lembro de achar interessante, mas também eu não pensava em você dessa forma. Naquele tempo eu estava almejando outras coisas, não pensava em romance. Nem com você nem com ninguém!
----- Entendi. E, hoje, o que você está almejando?
----- Se você tivesse me perguntado isso há alguns dias atrás eu diria que estava preocupada em como resolver meus problemas financeiros, pagar minhas dívidas e conseguir manter a livraria aberta. Mas, depois de ter acordado ao seu lado, não sei nem o que dizer, apenas que estou tão surpresa hoje como no dia que você tentou me beijar.
----- Então, continua me vendo só como um amigo, alguém que te apoia?
----- Jack, depois de ter dormido com você, jantado com você, estar fazendo negócios e depois daquele jogo de provocação na sua mesa, você acha que te vejo só como um amigo?!
----- Tá bom, um amante em potencial! Mas, apenas isso?
----- Jack, olha só, o que estou querendo dizer é que eu não te vejo só como um amigo, mas também não sei como te vejo. Aliás, eu nem sonhava com a possibilidade de você me achar atraente, que dirá algo mais. O que quero dizer é que ainda é tudo muito novo para mim, não esperava romance e menos ainda com você. Vamos deixar acontecer o que tiver que acontecer.
----- O que você quer dizer é que quer ir com calma, é isso? Sem rótulos?
----- Não exatamente!
----- Seja direta!
----- Jack eu quero te conhecer melhor e penso sim em ter algo mais do que sexo, se é o que você quer saber. Mas, eu não sei quem é o Jack de hoje e você não conhece a Olívia de hoje. É isso que estou querendo dizer.
----- Que bom saber que você pensa assim e respondendo diretamente a sua pergunta, o motivo pelo qual sempre repito que sonho com este momento é muito simples...
----- Shh! No momento certo, Jack! Quando eu puder retribuir com um “eu também”. ----- Como sabe o que vou dizer?
----- Porque em um ponto você não mudou.
----- É mesmo? E qual seria esse ponto?
----- Seu olhar. Lembro desse olhar no dia que acordei de manhã com você segurando a bandeja de café.
----- Meu olhar? Que olhar? Agora fiquei curioso!
----- Foi o olhar de um homem apaixonado.
----- E como pode ter certeza que é um olhar apaixonado?
----- Porque só dois vi dois homens com esse olhar em todos os meus anos de vida. O meu pai ao olhar a minha mãe e o Arthur olhando para minha irmã.
Depois daquela noite Olívia e Jack passavam mais tempo juntos do que qualquer casal apaixonado. Além de passarem as noites juntos, passavam todo o tempo livre que tinham juntos e ainda trabalhavam juntos. Eles simplesmente se encaixavam! Depois de quase terem se separado naquela noite nunca mais ninguém os viu sequer discordando. Jack adorava o foco para o trabalho de Olívia e Olívia a paciência de Jack.
Os dias se transformaram em semanas e as semanas em meses e Olívia já nem dormia mais em casa. Quando não estavam dormindo juntos ou trabalhando juntos estavam na casa de Mel. Afinal, depois que ela havia há algumas semanas descoberto a gravidez inesperada, Arthur estava em pânico! Ele quase desmaiava no mais leve gemido que Mel pronunciava e todos tinham que o acalmar Jack para que não saísse correndo com Mel nos braços pensando que era hora de irem para o hospital. Por isso, quando a bolsa de Mel estourou, Jack e Arthur quase furaram o chão da sala de espera da maternidade do hospital de tão nervosos.
E, quando Mel anunciou que queria Jack e Olívia como padrinhos do bebê, que aliás era uma linda menina, quando Jack ainda a segurava no colo, Olívia se surpreendeu ao ver Jack emocionado pela primeira vez. Mas, aquela não seria a primeira vez que ela o veria assim. Ah, mas isso ela iria descobrir sozinha...

Lília Durán

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