quarta-feira, 14 de setembro de 2011

QUANDO?


Por que ainda te sinto?!
O quê?! Te sinto?! Enlouqueço!
Mas, quando te sinto... reconheço,
Não te esqueço. 
Por que não te esqueço?
Loucura!
Mas, se é loucura... por que não te esqueço?


Quando?! 
Quando te conheci pensei que era amor,
Te via, não te esquecia,
Será que era amor? Que agonia,
Que desconfiança. 


Lágrimas percorrem minha face, todos os dias,
Quando me lembro de como me sentia.
Hoje, percebo que não te amava
Porque tampouco eu me amava 
Nem a mim mesma amava!
Pensei que não servia,
Então, lembrei-me de ti
E vi que te esqueci. 
 
 

Lília Durán

TODO MUNDO TEM DOIS LADOS


   Naquela tarde, Isabela estava deslumbrante, como sempre: vestira um jeans, uma camiseta e colocara sua jaqueta. Com o frio, pôs seu cachecol rosa e suas botas de camurça caramelo. Porém, não era a roupa a questão, mas o brilho intenso de seu olhar que irradiava: era algo mais, algo que só ela sabia. Arrumou sua bolsa enorme, trancou a porta e saiu em direção ao parque. Afinal, não deixaria de caminhar por conta do frio.
    Observou o lago: era de um azul tão intenso, que fazia seus enormes olhos azuis brilharem. Caminhou em direção ao jardim onde se sentou na relva, para olhar em volta. Gostava disso: observar pessoas. Podia passar o dia todo as observando: o olhar, as roupas, tudo! Isabela simplesmente observava, para decidir o que fotografar ou quem fotografar. Mas, não eram simplesmente fotos, era como se ela "captasse" a alma da pessoa, do ser ou do objeto: como se além da foto viesse junto a alma.
    Após fotografar tudo que lhe chamara a atenção foi para casa, onde poderia revelar as fotos e observar mais um pouco o que conseguira. Após revelar todas , pegou um café e sentou-se no sofá para relaxar, enquanto admirava as fotos. Olhou uma por uma e, por fim, parou numa específica: não sabia se eram os olhos, o brilho intenso dos cabelos ou a pele de porcelana, mas aquela mulher simplesmente lhe chamara a atenção. Era ela! Enfim, depois de alguns meses, voltaria finalmente a trabalhar. Colocou seu uniforme e partiu para o parque. Se sua intuição não falhasse (nunca falhara), aquela mulher gostava de caminhar pelo parque à noite. Para passear com seu cachorro ou simplesmente para pensar na vida.
    Caminhou por algumas horas, esperando que a mulher, que fotografara pela manhã, retornasse. Parecia ser tarde, já que eram só ela e algumas pessoas passeando com cachorros. Finalmente, após horas de espera, ela apareceu. Radiante, como estava pela manhã quando a vira. Acertou de novo: estava caminhando, mas não estava com nenhum cachorro. Estava só. Bem, pelo menos não teria nenhum animal latindo quando se aproximasse dela. Foi em sua direção e tocou em seu ombro, para que não se assustasse ou começasse a gritar. Ela se virou: era ainda mais insuportavelmente radiante! Porra, ela comia glitter?! Parecia! Ela irradiava alegria: era isso! Por isso, parecia brilhar, ela toda transmitia uma alegria... Alegria irritante!
    Se cumprimentaram e Isabela não lhe disse seu verdadeiro nome, mas a mulher parecia que acreditara e sincera ao dizer o seu: Margarida. Argh! Até seu nome era alegre! Caminharam e conversaram por alguns minutos, e finalmente se sentaram, bem próximas do lago. Ali faria o que estava pensando desde que a vira. Conversaram mais um pouco, e Isabela foi se sentindo cada vez mais radiante: seus gestos, a postura de seu corpo, tudo nela parecia transmitir alegria: era assim que se sentia quando encontrava a alma que queria "captar". Continuava ouvindo aquela risada, porém não saberia por quanto tempo mais aguentaria. E, então, sem dizer nada a puxou pelos cabelos e a esfaqueou algumas vezes com a faca que guardara em seu casaco:. Não saberia dizer quantas, mas o suficiente para não a ouvir mais rir. Se levantou, arrastou-a até a margem do lago, limpou as luvas sujas de sangue e jogou a faca no chão. Não se preocupava com DNA. Afinal, quem a identificaria?! Passara o tempo todo com as luvas, e a idiota nem se dera conta! Além disso, sempre ia ao parque tirar fotos. Não levantava suspeitas.
    Caminhou mais um pouco, para não chamar atenção e foi embora. Em casa, fez o que sempre fazia: guardou o chumaço de cabelo da mulher, junto com todos os outros. Pegou um café, sentou-se e voltou a olhar a foto. Bem, agora Margarida iria florir todo o jardim do parque: a plantara com o devido cuidado que merecia.
    Isabela pegou a foto que tirara pela manhã e começou a rir, ria alto! Pelo que fizera e lhe dava tanto prazer, pela piada que pensara, pela morte daquela flor insuportavelmente feliz, por tudo! Ria por fazer o que fazia: matar impunemente! Era seu "trabalho" predileto! Afinal, "captar" a alma de uma pessoa não era nada fácil! 

Lília Durán