Era uma tarde de verão como outra qualquer, mas algo naquele verão de Portside seria diferente. A livraria, única livraria que ainda persistia em meio à globalização, abrira suas portas às vésperas do feriado local com a esperança de que naquela noite conseguissem o milagre que Olívia, dona do local, tanto esperava. Olívia rezara, coisa que nunca fez, naquela madrugada, pedira que o banco aceitasse seu mais recente pedido de empréstimo.
Não foi o que aconteceu...era o que já sabia fazia algumas horas sentada nas escadas da livraria, pensando em uma forma de contar a Karen e Oliver, que eram mais do que funcionários, eram amigos e, mais do que amigos, seus mais fiéis companheiros de trabalho, desde que sua mãe falecera e lhe deixara a livraria como herança.
Mel e seu marido, Arthur, tinham um plano para que Olívia conseguisse pagar todas as suas dívidas, mas será que Olívia aceitaria?! Mel e seu sexto sentido feminino achavam que sim, Arthur e sua racionalidade masculina acreditavam que tudo estava perdido...
“Vocês enlouqueceram?!”, esta havia sido a resposta de Olívia em relação à ideia de Mel. Ah, claro, vocês devem estar curiosos...A ideia era simples, persuadir o mais rico solteiro da cidade e se casar o mais rápido que conseguisse, afinal, “nada melhor do que um pouquinho de dinheiro para resolver a situação”, foi o que Mel lhe disse após Olívia sair pela porta enfurecida.
Após mais alguns minutos sentada naquela escada Olívia estava repensando sua resposta...achou melhor ouvir tudo, e retornou para a casa de sua irmã, que agora tomava café da manhã.
---- Como você acha que eu conseguiria fazer com que Jack se casasse comigo?, disse Olívia, já sentando-se à mesa.
---- Bom dia para você também..., disse Mel, já comemorando que estava certa. ---- Não me venha com essa, foi você que deu a ideia, disse Olívia envergonhada de ter que pensar em algo assim.
Passaram-se quase duas semanas desde que haviam conversado e mal podia acreditar que agora estava esperando Jack para jantarem juntos. Quase não acreditou quando sua irmã lhe dera a ideia, mas agora, que finalmente havia conseguido o primeiro e tão sonhado encontro, tinha que admitir que sua irmã tinha mais faro para homens do que ela...
“Nossa, nem podia acreditar que a mulher mais linda da cidade aceitara seu convite”, era o que Jack não parava de pensar...
---- Olá, Jack, está tudo bem?!, perguntou Olívia, preocupada com a reação de Jack ao abrir a porta.
---- Sim, sim...é que você está linda...quer dizer, você é linda, mas hoje, Aff...
---- Jack, calma, eu entendi, e obrigada..., disse Olívia, ainda tentando entender aquele elogio repentino de alguém que ela jamais imaginaria sendo o autor...
---- Desculpe, eu não sei como fazer essas coisas, mas vou tentar de novo...linda, como sempre, mas hoje mais do que o habitual, é que você não costuma usar muito vestido, deveria, você fica linda...
---- Nossa! Obrigada, Jack. Vou pensar quanto a isso...quem sabe não uso mais..., respondeu Olívia, ainda admirada com os elogios, afinal, nunca o vira sair com alguém e muito menos com uma mulher e muito menos se imaginava sendo a mulher.
---- Bom, vamos?, disse Jack, tentando disfarçar a ansiedade do encontro.
---- Sim, vamos..., respondeu Olívia, meio sem jeito, ainda tentando entender, ou fingir que não entendia, o olhar de Jack.
Após alguns goles de vinho o clima de tensão inicial já nem se percebia e agora o que estava mais do que claro era que já não se sabia quem estava tentando conquistar quem. Mas, com certeza, ambos estavam mais ansiosos para outro local do que um restaurante sofisticado.
Olívia já não entendia nada. Quando chegaram ao restaurante suas investidas sensuais já nem eram mais necessárias, porque Jack passou de gentil e elegante para um homem que emanava testosterona por todos os poros...agora, ela apenas ria de uma ou outra investida, fingindo ser recatada, enquanto Jack não parava de pensar em como tirar a roupa de Olívia.
Ao fim do encontro Olívia já não se reconhecia no banco de trás do carro de Jack, como se ainda fosse uma adolescente. No início, ela apenas ia se despedir com um beijo de boa noite e, agora, já nem se lembrava mais como haviam parado ali. Antes que Jack conseguisse lhe despir por completo, lançou:
---- Vamos entrar..., disse Olívia ofegante.
---- Você tem certeza?!, disse Jack, agora já afastado e olhando profundamente para Olívia.
---- Não tenho certeza de nada, a única coisa da qual tenho certeza é que eu não quero estar no banco de trás quando me lembrar deste encontro., respondeu Olívia ainda confusa com sua resposta.
E sem falar absolutamente nada à Olívia, quando se deram conta já estavam frente a frente no quarto...Olívia não parava de morder seu lábio interno da boca, sinal de que estava mais ansiosa do que nervosa e Jack não parava de esfregar as mãos na calça, pelo mesmo motivo.
---- Você tem certeza que quer continuar?!, disse Jack segurando o queixo de Olívia com carinho.
---- Absoluta!, lançou.
Sem pronunciar uma palavra Jack a beijou, mas a beijou de uma forma que jamais havia sido beijada, ao mesmo tempo que havia carinho também havia ânsia e uma ânsia que Olívia jamais pensaria que viria dele...
Antes que Jack a despisse, a enlaçou pela cintura e disse, com voz firme:
---- Olívia, não sou como esses idiotas, que, para mim, não considero homens, que chega um ponto que não há volta. Se quiser parar, ou não estiver confortável para você, é só falar e paro imediatamente.
E, sem pronunciar uma palavra sequer, Olívia lhe respondeu com apenas um beijo e uma afirmação com a cabeça, quase sem reação pela postura de Jack ao pronunciar aquelas palavras.
Quando o sol de meio-dia despontou pela janela a única certeza que Olívia tinha era de que estaria encrencada se Jack não a pedisse em casamento até o final do mês. Mas, não pelas dívidas, coisa que já nem passava mais pela sua cabeça, pelo sentimento que a envolvera naquela noite e que ainda não queria acreditar, afinal, ela não podia ter gostado, ou podia?!
---- Bom dia, Bela Adormecida!, disse Jack segurando uma bandeja.
---- Bom, Olívia parou sem fala, quando viu que Jack havia acordado e preparado aquilo tudo...e continuou: não precisava ter se incomodado, terminou de falar.
---- Eu vi você dormindo tão profundamente que fiquei com pena de te acordar., respondeu Jack oferecendo um copo de suco.
Como não sabia como agir, levantou-se em um pulo, pegando o copo da mão de Jack, e enquanto abria seu closet bebia o suco. Optou por algo simples, pegando um vestido branco, assim ficaria menos tempo sob o olhar indagador de Jack e pegando sua bolsa disparou:
---- Fique à vontade. Vou até a livraria ver como anda tudo e retorno lá pelas 18hrs, caso queira ficar, esteja a vontade para comer e beber o que quiser na geladeira.
E antes que Jack pudesse responder saiu em disparada para sua irmã, pois só ela poderia lhe ajudar a entender tudo. Afinal, havia sido ela quem lhe pusera essa ideia maluca na cabeça...
Ao se deparar com a porta da casa de sua irmã percebeu que havia trazido as chaves e que, sem nem pensar, trancara Jack em sua casa. Mas não queria voltar, o jeito era ligar...
---- Jack, que bom que atendeu! Me desculpe, acabei trancando você ai!, disse com uma risada nervosa.
---- Ahhh, então foi por isso que não consegui abrir a porta, respondeu Jack em tom de ironia.
---- Eu estou na casa de minha irmã, tinha um assunto para tratar com ela antes de ir para a livraria. Não vou me demorar, mas só poderei retornar dentro de uma hora mais ou menos. Disse Olívia sem graça.
---- Eu estou brincando, nem levantei da cama, respondeu rindo e continuou, pode demorar o quanto quiser. Você mesma disse que não retorna antes das seis e eu não tenho nada que me impeça de ficar. Caso precise de algo eu aviso, ok?!
---- Ah! Bom, se não há nenhum problema, então nos vemos mais tarde. Saio daqui e passo na livraria, talvez antes das seis consiga retornar. De qualquer forma, eu aviso., respondeu Olívia já pensando que ia demorar mais em sua irmã diante dessa nova informação.
Ao desligar tocou a campainha e quem veio foi Arthur, pois sua irmã estava na livraria a esperando e a esta altura já havia espalhado a notícia de seu encontro por toda livraria. Se despediu rápido e foi em disparada para a livraria, onde estavam todos indóceis à sua espera.
---- Não fique aí parada, vamos, conte logo como foi!, disseram Karen e Mel, quase em uníssono.
---- Karen! Volte ao trabalho! Qualquer coisa eu estou na minha sala, e continuou, vamos Mel, temos muuuuuuuuuito que conversar!
Ao entrarem, Olívia se jogou em sua cadeira, respirou fundo e uma lágrima desceu pelo seu rosto. Mel, que não entendia nada foi em sua direção e a abraçou, Olívia, ao sentir aquele conforto, disparou num choro e, caiu em um pranto, que nem ela entendia...
---- Olívia! O que aconteceu?! Ele te machucou? Ele fez algo errado? Fala alguma coisa! Você está me assustando!, disse Mel, já pensando em tudo de ruim que Jack deveria ter feito com sua irmã.
---- Eu não posso! Eu não consigo!, foram as únicas frases que conseguiu responder.
---- Calma, vamos do início. Primeiro me explique porque está assim.
---- Mel, ele faz tudo certo, eu não consigo fingir estar apaixonada só pelo dinheiro dele. Eu posso parecer louca, mas eu acho que ele sempre esperou por esse encontro. Portanto, se ele esperou, eu não posso continuar, eu não posso magoar seus sentimentos!, disse Olívia aos prantos.
---- Calma, foi um encontro Olívia, ninguém se apaixona assim em um encontro! ---- Exatamente! Por isso eu não posso continuar! Ele sempre foi apaixonado por mim Mel, eu vi! Eu não posso fazer isso com ele, eu não consigo!
---- Olívia, você está se ouvindo? Por que não consegue? Se o que você diz é certo e Jack sempre foi ligado em você torna tudo mais fácil! A princípio era só pelo dinheiro, mas se ele sente isso por você, então, se entregue e pare de pensar no dinheiro, pois se ele está apaixonado por você, e você está se sentindo culpada então faça por você mesma!
---- Esse é problema! Eu não sei o que fazer...,Olívia admitiu finalmente.
---- Por que você ficou assim? O que você sentiu, o que está sentindo?
---- Mel, nós dormimos juntos, aliás, ele está lá em casa esperando eu chegar. Me acordou com uma bandeja de café na cama, eu não sabia o que fazer e corri pra cá. Quer dizer, corri pra sua casa, Arthur que falou que você já estava aqui.
---- Peraí! Tudo isso em um primeiro encontro?! Disse Mel rindo. ---- Por isso não me admira você estar assustada assim! Olívia, se acha que tudo está indo muito rápido, peça a ele para ir com calma. Simples.
---- Você acha que eu devo?
---- Olívia, esquece a livraria e volte para casa, vocês precisam conversar! Fale como se sente, tudo que observou, se você quer que seja uma relação maior do que um marido rico para pagar suas dívidas, se abra com ele.
---- Mas e se ele achar que dormi com ele por interesse? Quer dizer, no início sim, mas quando abri a porta e o vi ali na minha frente, eu não dormi com ele pelo dinheiro, aliás, eu nem sei porque dormi com ele...
---- Então fale tudo isso para ele, fale da livraria, fale de você! Se você pensa nele como algo mais do que era então você tem que estar tendo esta conversa com ele e não comigo.
---- Você tem razão! É um risco, mas ele precisa saber. Tenho que ser sincera.
Quando abriu a porta de casa, Olívia nem sabia como falar com Jack ou se devia falar. Mas, sua irmã tinha razão, se queria começar algo com Jack não podia ser mentindo. Entrou, largou sua bolsa na mesa e seguiu para a cozinha, pois seu olfato lhe indicava o caminho, e pelo cheiro eles precisavam mesmo conversar, porque ela sequer sabia que ele cozinhava.
---- Ah, oi, eu pensei que você ia demorar mais, nem perguntei se você se importava que cozinhe, é que pensei que você talvez fosse chegar com fome, você saiu só com aquele copo de suco...
---- Sem problemas, eu disse que podia ficar à vontade, eu nem sabia que você sabia cozinhar...
---- Tem muita coisa sobre mim que você não sabe, ainda...mas, em breve você saberá.
---- Jack, quando acabar, eu queria, quer dizer, eu quero conversar. Nós precisamos conversar!
---- Ok, se quiser podemos conversar primeiro. Posso cozinhar depois. Ia começar quando você chegou.
---- Se não se importa, prefiro que seja agora, eu preciso falar com você. ---- Ok, pode falar.
---- Aqui? Na cozinha?! Bem, tudo bem então...
---- Se preferir podemos conversar no seu quarto.
---- Melhor aqui...
---- Fala logo, o lugar não importa...
---- Tem razão! Bom, Jack, antes que você pense qualquer coisa melhor começar pelo fim. Eu realmente quero que demos certo e para isso tem algo que você precisa saber!
---- Que você está atolada em dívidas na livraria?! Olívia, todos aqui na cidade sabem disso. Quando seu cunhado comentou que você estava pensando em vender a livraria, eu imediatamente a convidei para jantar, esse foi meu intuito ontem, mas admito que tudo que aconteceu ontem e como aconteceu não estava em meus planos...
---- Sim, mas tudo que aconteceu depois, olha Olívia você é linda, mas meus motivos, o que eu queria era falar com a mulher de negócios, a Olívia que se deitou ao meu lado, eu não previ isso. Aconteceu...
---- Agora eu estou envergonhada.
---- Não, eu não estou arrependida! Jack, me deixe falar! Sem me interromper, por favor. Quando eu acabar de falar você irá me entender.
---- Prossiga. Prometo não interromper até acabar.
---- Jack, quando eu aceitei seu convite meu motivo, motivo não, a ideia foi toda da minha irmã. Quer dizer, bom, vamos do início...
Ao contrário do que Olívia pensou Jack quase foi embora ao ouvir as palavras “eu pensei em conquistar você, me casar e pedir o dinheiro”, mas antes que Jack o fizesse, Olívia, aos prantos, lhe confessou:
---- Quando levantei com aquela bandeja feita por você e ainda mais quando cheguei e o encontrei aqui na minha cozinha...o assunto que tinha que tratar com minha irmã era sobre isso! Eu não consigo Jack, não depois da noite que tivemos. ---- Eu estava certo, você se arrependeu...
---- Não! Ao contrário, você está certo em uma coisa, eu me arrependi, mas me arrependi de pedir dinheiro à você! Não quero seu dinheiro! Não depois do que tivemos! Eu não consigo fazer isso com você e nem comigo! Eu entenderei se quiser ir embora, mas saiba que lembrarei dessa noite para sempre...
---- Eu preciso ir embora...eu preciso pensar...no momento, só posso dizer até logo. Irei pensar em tudo que você me disse...mas não sei o que pensar...
---- Eu entendo...não o culpo...
---- Só peço uma coisa, não se envergonhe, você não sabia o que fazer. A motivação pode ter sido errada, mas não me arrependo de ter dormido com você nem de estar aqui agora...
---- Que bom saber disso, porque eu também não arrependo. Só me arrependo de não ter pensando num encontro antes...
---- Que bom ouvir isso...em breve entrarei em contato, no momento, preciso pensar em tudo, ok?!
---- Tudo bem...então, como você mesmo disse, até logo...