quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TODO MUNDO TEM DOIS LADOS


   Naquela tarde, Isabela estava deslumbrante, como sempre: vestira um jeans, uma camiseta e colocara sua jaqueta. Com o frio, pôs seu cachecol rosa e suas botas de camurça caramelo. Porém, não era a roupa a questão, mas o brilho intenso de seu olhar que irradiava: era algo mais, algo que só ela sabia. Arrumou sua bolsa enorme, trancou a porta e saiu em direção ao parque. Afinal, não deixaria de caminhar por conta do frio.
    Observou o lago: era de um azul tão intenso, que fazia seus enormes olhos azuis brilharem. Caminhou em direção ao jardim onde se sentou na relva, para olhar em volta. Gostava disso: observar pessoas. Podia passar o dia todo as observando: o olhar, as roupas, tudo! Isabela simplesmente observava, para decidir o que fotografar ou quem fotografar. Mas, não eram simplesmente fotos, era como se ela "captasse" a alma da pessoa, do ser ou do objeto: como se além da foto viesse junto a alma.
    Após fotografar tudo que lhe chamara a atenção foi para casa, onde poderia revelar as fotos e observar mais um pouco o que conseguira. Após revelar todas , pegou um café e sentou-se no sofá para relaxar, enquanto admirava as fotos. Olhou uma por uma e, por fim, parou numa específica: não sabia se eram os olhos, o brilho intenso dos cabelos ou a pele de porcelana, mas aquela mulher simplesmente lhe chamara a atenção. Era ela! Enfim, depois de alguns meses, voltaria finalmente a trabalhar. Colocou seu uniforme e partiu para o parque. Se sua intuição não falhasse (nunca falhara), aquela mulher gostava de caminhar pelo parque à noite. Para passear com seu cachorro ou simplesmente para pensar na vida.
    Caminhou por algumas horas, esperando que a mulher, que fotografara pela manhã, retornasse. Parecia ser tarde, já que eram só ela e algumas pessoas passeando com cachorros. Finalmente, após horas de espera, ela apareceu. Radiante, como estava pela manhã quando a vira. Acertou de novo: estava caminhando, mas não estava com nenhum cachorro. Estava só. Bem, pelo menos não teria nenhum animal latindo quando se aproximasse dela. Foi em sua direção e tocou em seu ombro, para que não se assustasse ou começasse a gritar. Ela se virou: era ainda mais insuportavelmente radiante! Porra, ela comia glitter?! Parecia! Ela irradiava alegria: era isso! Por isso, parecia brilhar, ela toda transmitia uma alegria... Alegria irritante!
    Se cumprimentaram e Isabela não lhe disse seu verdadeiro nome, mas a mulher parecia que acreditara e sincera ao dizer o seu: Margarida. Argh! Até seu nome era alegre! Caminharam e conversaram por alguns minutos, e finalmente se sentaram, bem próximas do lago. Ali faria o que estava pensando desde que a vira. Conversaram mais um pouco, e Isabela foi se sentindo cada vez mais radiante: seus gestos, a postura de seu corpo, tudo nela parecia transmitir alegria: era assim que se sentia quando encontrava a alma que queria "captar". Continuava ouvindo aquela risada, porém não saberia por quanto tempo mais aguentaria. E, então, sem dizer nada a puxou pelos cabelos e a esfaqueou algumas vezes com a faca que guardara em seu casaco:. Não saberia dizer quantas, mas o suficiente para não a ouvir mais rir. Se levantou, arrastou-a até a margem do lago, limpou as luvas sujas de sangue e jogou a faca no chão. Não se preocupava com DNA. Afinal, quem a identificaria?! Passara o tempo todo com as luvas, e a idiota nem se dera conta! Além disso, sempre ia ao parque tirar fotos. Não levantava suspeitas.
    Caminhou mais um pouco, para não chamar atenção e foi embora. Em casa, fez o que sempre fazia: guardou o chumaço de cabelo da mulher, junto com todos os outros. Pegou um café, sentou-se e voltou a olhar a foto. Bem, agora Margarida iria florir todo o jardim do parque: a plantara com o devido cuidado que merecia.
    Isabela pegou a foto que tirara pela manhã e começou a rir, ria alto! Pelo que fizera e lhe dava tanto prazer, pela piada que pensara, pela morte daquela flor insuportavelmente feliz, por tudo! Ria por fazer o que fazia: matar impunemente! Era seu "trabalho" predileto! Afinal, "captar" a alma de uma pessoa não era nada fácil! 

Lília Durán

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